
Entre o riso e o risco:
HUMOR E VULNERABILIDADE DIGITAL
Como o humor aproxima, informa e influencia opiniões
Por Maria Luiza Lopes e Filipe Bezzan









Na era digital, o humor é uma poderosa ferramenta: conecta pessoas, informa e, às vezes, engana. A linha entre desinformação e comunicação segura depende de como consumimos e compartilhamos esses conteúdos.
Memes: as piadas digitais que atravessam gerações
O termo “meme” surgiu nos anos 1970, no livro O Gene Egoísta, de Richard Dawkins, e deriva do grego mimeme, usado para designar ideias que se replicam culturalmente. Ao longo da história, o meme assumiu diferentes formas: antes de se tornar piada digital nas redes sociais, podia aparecer em programas de rádio, quadrinhos ou publicações humorísticas.
Para Claire Wardle, pesquisadora de Harvard, compreender o impacto do humor na circulação de informações exige um olhar para além do conteúdo e considerar o contexto em que ele é compartilhado. Segundo Wardle (entrevista para TED TALKS):
“Não é apenas sobre o que está sendo publicado, mas sobre como e por quem é consumido; a interpretação do usuário
determina se a piada se torna informação, “desinformação” ou simplesmente entretenimento.”
O humor atua como uma ponte entre o público e a informação. Ele quebra barreiras, torna assuntos complexos mais acessíveis e engaja leitores que, em outras circunstâncias, poderiam se afastar de temas sérios. Piadas, memes e referências culturais funcionam como uma linguagem compartilhada, que aproxima jornalistas e instituições do cotidiano das pessoas, facilitando a circulação de notícias e ampliando o alcance de mensagens importantes.
Perfis e portais oficiais do governo brasileiro têm adotado uma linguagem mais jovem e humorística para se comunicar nas redes sociais. A estratégia, que busca engajar sobretudo o público jovem e aproximar instituições de temas do cotidiano, gerou visibilidade, mas também abriu espaço para críticas. Os debates apontam que, ao adotar um tom mais leve e cômico, o governo corre o risco de diminuir a seriedade de pautas relevantes e transformar informações oficiais em puro entretenimento. Outros questionam os limites éticos: até que ponto o humor aproxima a população e até onde pode ser usado como instrumento de propaganda ou manipulação? Portanto, o assunto gira em torno do equilíbrio entre comunicação acessível e responsabilidade institucional, colocando em xeque se a postura descontraída é compatível com a função pública de informar com clareza e imparcialidade.
Representação gerada por inteligência artificial dos candidatos à Eleição Presidencial de 2022 como um circo, inspirada no debate eleitoral mediado por William Bonner, jornalista e âncora do Jornal Nacional, transmitido pela TV Globo em 29 de setembro do mesmo ano ( vídeo completo). O debate, que tinha como objetivo apresentar propostas e posicionamentos dos candidatos, gerou repercussão negativa nacional e internacional devido ao tom cômico e à circulação de notícias falsas e distorções durante a cobertura e nas redes sociais. (Imagem: IA Gemini para fins ilustrativos)
Humor fora de contexto: quando a piada distorce a notícia
Diferente do que muitos imaginam, a desinformação não se resume a inventar mentiras. Muitas vezes, ela se constrói a partir de informações reais, mas apresentadas de forma incompleta, distorcida ou fora de contexto. Uma estatística pode ser exibida sem a explicação de sua metodologia; uma frase pode ser recortada de uma entrevista e perder completamente seu sentido original; uma imagem pode ser reaproveitada em outra situação e induzir à leitura errada dos fatos. Nessas brechas, pode se criar uma narrativa que parece legítima, mas que não corresponde à realidade de forma integral.
Esse mecanismo é justamente o que torna a desinformação tão eficaz: ela se ancora em fragmentos de verdade para ganhar credibilidade, ao mesmo tempo em que compromete a compreensão plena dos acontecimentos. Assim, em vez de informar, esses conteúdos acabam reforçando preconceitos, moldando percepções enviesadas e alimentando ruídos no debate público. O que está em jogo não é apenas a qualidade da informação, mas a própria capacidade da sociedade de interpretar criticamente o que consome.
O humor como notícia não poupa ninguém. Em 2018, por exemplo, um meme sobre o então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva circulou nas redes afirmando que ele teria sido “preso, solto e preso em três horas”, após decisões conflitantes da Justiça. A piada, embora popular, ignorava um detalhe essencial: Lula não chegou a deixar a prisão naquele dia.
Representação gerada por inteligência artificial inspirada no meme sobre Lula, retratado como detento diante de uma porta giratória em uma prisão. A ilustração faz alusão à piada viral de 2018 de que a porta seria instalada para que ele pudesse entrar e sair muitas vezes. (Imagem: IA Gemini para fins ilustrativos)
O ex-presidente Jair Messias Bolsonaro também se tornou alvo de memes que combinavam humor e distorção. Em um deles, sua tornozeleira eletrônica foi representada como o “sapato de cristal da Cinderela” — uma referência lúdica ao conto de fadas, mas completamente descolada da realidade. Apesar do tom de piada, a imagem acabou confundindo parte do público menos familiarizado com a linguagem dos memes, que chegou a acreditar que a Polícia Federal teria dado ao ex-presidente um “sapato” em vez de uma tornozeleira. O caso exemplifica como, mesmo em tom cômico, conteúdos descontextualizados podem gerar interpretações equivocadas e reforçar narrativas distorcidas.
Representação gerada por inteligência artificial da personagem Cinderela com o sapatinho de cristal, usada como metáfora à tornozeleira eletrônica atribuída em memes ao ex-presidente Jair Bolsonaro. (Imagem: IA Gemini para fins ilustrativos)
“Fake News”: a melhor amiga da mentira
Entre as diversas formas de desinformação, as chamadas “fake news” ganharam protagonismo nos últimos anos. O termo, apesar de problemático, tornou-se popular para se referir a conteúdos fabricados ou manipulados que circulam como se fossem verdadeiros. Mais precisamente, trata-se de informações falsas ou distorcidas, elaboradas com a intenção de enganar, influenciar opiniões ou provocar comportamentos coletivos. Neste texto, manteremos o uso da expressão “fake news” por ser a mais difundida entre o público em geral.
No Brasil, o fenômeno ganhou força em momentos críticos, como durante a pandemia da Covid-19 e nas eleições presidenciais de 2018 e 2022, quando rumores sobre vacinas, urnas eletrônicas e até mesmo conspirações internacionais circularam em alta velocidade pelas redes sociais. Relatórios de organizações internacionais mostram que o país está entre os mais vulneráveis a esse tipo de conteúdo. Parte desse impacto vem do comportamento dos próprios usuários: muitos acabam compartilhando sem checar a veracidade, confiando em redes de amizade ou em títulos chamativos, o que amplia ainda mais o alcance das “fake news”.
Relatório da OCDE, publicado pelo Jornal da USP em 2024 mostra que apenas 60% dos brasileiros checam averacidade das notícias, enquanto os outros 40% compartilham sem checar.
A UNESCO alertou, em entrevista à Agência Brasil, que a desinformação é hoje o principal risco global. Marcelo Camargo, diretor de comunicação da entidade, destacou que as redes sociais têm papel duplo: podem tanto combater quanto agravar o problema. Para ele, os países ainda não estão preparados para enfrentar o impacto negativo desse fenômeno, que ameaça sociedades inteiras. No cotidiano, a propagação de informações fúteis e distorcidas pode isolar as pessoas socialmente, dificultando diálogos e trocas de ideias baseadas em fatos.
Além disso, a legislação brasileira também busca punir os responsáveis pela disseminação de informações falsas. A Lei nº 13.834/2019, conhecida como Lei das “Fake News”, prevê penas de dois a oito anos de prisão para indivíduos que, de forma deliberada, utilizarem conteúdos falsos com o objetivo de prejudicar pessoas ou instituições. Atualmente, a Polícia Federal, órgãos governamentais e equipes especializadas contam com sistemas de rastreamento e monitoramento digital que permitem identificar e responsabilizar aqueles que, escondidos atrás de telas, se aproveitam do ambiente virtual para espalhar mentiras, manipular opiniões e comprometer a confiabilidade da informação.
O deputado federal André Janones (Avante-MG) já esteve envolvido em controvérsias relacionadas à disseminação de informações falsas. Segundo reportagem da CNN News, algumas postagens atribuídas ao parlamentar circularam nas redes sociais com conteúdos considerados enganosos ou distorcidos, e ele foi obrigado pelo ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, a desmentir e apagar as informações. Em suas próprias declarações ou publicações, Janones teria reconhecido a propagação de determinados conteúdos, reforçando o debate sobre a responsabilidade de figuras públicas na circulação de informações.
Da mesma forma, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) também se envolveu em episódios de propagação de “fake news” e se tornou réu na justiça. Reportagem do G1 aponta que alguns conteúdos de sua autoria continham informações distorcidas sobre políticas públicas, eleições e medidas de saúde. Em declarações públicas, Ferreira chegou a reafirmar conteúdos falsos, ignorando alertas de órgãos de checagem, evidenciando os riscos da circulação deliberada de “fake news” por figuras públicas e reforçando a importância de responsabilização jurídica e ética na disseminação de informações.
Representação artística dos parlamentares, simbolizando punição por disseminação de informações falsas. (Imagem gerada por IA para fins ilustrativos)
Nesse cenário, o humor, que poderia ser uma ponte para informar de forma leve, também se mostra uma ferramenta estratégica na disputa por atenção e poder de convencimento, contribuindo para a propagação de “fake news” que atrapalham a compreensão dos fatos e confundem o público. A polarização política também é responsável pela disseminação de notícias falsas, independente do viés político de cada pessoa, o humor e a influência que ele gera sobre o público geral se torna arma nas mãos daqueles que colocam seus interesses pessoais antes da lei, da honestidade e da moralidade.
O humor na vida real: como o público reage?
Para entender como os memes são consumidos e interpretados pelo público, esta reportagem realizou uma sondagem anônima intitulada “Memes e Notícias”, com 26 participantes de diferentes idades e perfis políticos. O objetivo foi mapear comportamentos e percepções em relação ao compartilhamento de conteúdos humorísticos e informativos nas redes sociais.
Fonte: Pesquisa do forms “Memes e Notícias” https://forms.gle/XdEJiiTE1zMtG5bP6
O levantamento revelou que 42,3% dos respondentes admitiram já ter compartilhado informações sem checar a veracidade, evidenciando o impacto da circulação rápida de conteúdos digitais. Além disso, 50% disseram rir e desconfiar da veracidade, mas ainda assim não buscaram confirmação, e 7,7% confessaram simplesmente rir e seguir para o próximo meme, sem refletir sobre a informação apresentada.
Fonte: Pesquisa do forms “Memes e Notícias” https://forms.gle/XdEJiiTE1zMtG5bP6
Fonte: Pesquisa do forms “Memes e Notícias” https://forms.gle/XdEJiiTE1zMtG5bP6
Quanto ao uso de memes como fonte de notícias, 19,2% afirmaram recorrer a eles sempre, 42,3% frequentemente e apenas 7,7% nunca, mostrando que o humor funciona como uma forma de se aproximar da informação, ainda que nem sempre de maneira crítica. Esses dados reforçam a ideia de que o riso pode reduzir temporariamente a atenção à veracidade do conteúdo, tornando o público mais suscetível à desinformação, mesmo quando percebe a possibilidade de distorção.
Em entrevista, José Eduardo Souza Silva, 23 anos, afirmou sentir-se dentro de uma verdadeira bolha de informações em suas redes sociais. Segundo ele, os memes que aparecem em seu feed refletem majoritariamente seu próprio viés político e ideológico. O jovem, no entanto, chama atenção para a forma como o humor se manifesta nesse ambiente de polarização, funcionando tanto como ponto de identificação quanto como reforço de divisões.
Ele também alerta para os riscos que percebeu no uso indiscriminado do humor, capaz de distorcer fatos reais e influenciar a percepção do público de maneira equivocada.
A jornalista Giovana Sallum, formada pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), concedeu entrevista para esta reportagem:
“Na minha pesquisa, que foi defendida como Trabalho de Conclusão de Curso do curso de Jornalismo da UFU, eu estudei
como os memes virtuais atuam no combate da desinformação sobre assuntos relacionados especificamente à vacinação contra a Covid-19 (...).
A partir dela, cheguei à conclusão de que os memes são ferramentas válidas de comunicação científica popular, com grande
potencial no combate à desinformação, mas com limites que ainda devem ser estudados mais a fundo.”
O que está por trás do compartilhamento?
Além dos aspectos tecnológicos que sustentam a propagação de “fake news”, o comportamento humano exerce papel decisivo nesse processo. Um conceito bastante discutido é o FOMO (fear of missing out), ou medo de ficar de fora. Esse fenômeno explica por que muitas pessoas sentem a necessidade constante de interagir, curtir e compartilhar conteúdos nas redes sociais. O receio de não acompanhar o que circula nos grupos — sejam notícias, memes e vídeos engraçados — pode gerar desconforto psicológico e a sensação de exclusão. Assim, o compartilhamento se torna um mecanismo de pertencimento: quando alguém envia um meme ou repassa uma notícia, busca reforçar vínculos sociais, mostrar engajamento e sinalizar que está atualizado sobre o que está em pauta.
Do ponto de vista psicológico, esse comportamento está associado ao prazer e à validação social. Cada curtida, comentário ou reação positiva ativa sensações de recompensa ligadas à dopamina, reforçando o hábito de compartilhar. Além disso, os conteúdos que escolhemos dividir com os outros contribuem para a construção de nossas identidades digitais, funcionando como marcadores de gostos, valores e opiniões. Nesse cenário, o ato de compartilhar não é apenas diversão: é também uma ferramenta de integração social e de reconhecimento, que ajuda o indivíduo a sentir-se incluído e validado dentro de uma comunidade.
Como destacou Giovana Sallum:
“O humor afeta tanto a maneira com que as pessoas entendem as notícias porque quando falamos de humor, também estamos falando sobre
a expressão de opiniões. (...) se um indivíduo encontra um conteúdo humorístico que expressa uma opinião
parecida com aquela que já é carregada no íntimo desse indivíduo, a chance de ela compartilhá-lo cresce consideravelmente”.
O riso, por sua vez, exerce dupla função. Do lado positivo, ele libera endorfinas, reduz o estresse e cria um estado de leveza que favorece empatia e criatividade. Porém, justamente por relaxar as barreiras cognitivas, também pode enfraquecer a análise crítica e aumentar a vulnerabilidade à aceitação de ideias sem questionamento. Em contextos de manipulação, como no caso de memes e piadas que distorcem fatos, o humor pode se transformar em um instrumento de persuasão, funcionando como uma chave que altera temporariamente a disposição mental e reduz a rigidez do pensamento lógico.
A classe social acrescenta uma camada essencial a essa dinâmica. Indivíduos de classes sociais mais altas, com maior acesso à educação formal e recursos digitais, tendem a dispor de mais ferramentas para checar fontes e diferenciar entre informação confiável e enganosa. Já os de classes sociais mais baixas, com acesso restrito à educação e à tecnologia, enfrentam dificuldades adicionais para verificar a veracidade das informações, o que os torna mais expostos a armadilhas informacionais. Essa desigualdade amplia o risco de “fake news” e reforça disparidades no acesso ao conhecimento, revelando a urgência de políticas que promovam letramento midiático em diferentes contextos socioeconômicos.
Nesse ponto, a interpretação tem papel central. Como disse Beatriz Silva, doutoranda em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB), em entrevista:
“A gente pode ver a mesma coisa e entender de formas completamente diferentes, dependendo do que já acredita ou do que quer enxergar”.
A fala dela evidencia como a leitura de um meme ou de uma piada varia de pessoa para pessoa, e como esse processo de interpretação pode tanto esclarecer quanto confundir.
Ainda assim, ter recursos educacionais e digitais não significa imunidade. Mesmo indivíduos com alto grau de escolaridade e acesso à informação de qualidade podem se tornar agentes da “fake news” quando fatores como viés de confirmação entram em jogo. Essa tendência psicológica leva as pessoas a aceitar com mais facilidade informações que reforçam crenças pré-existentes, especialmente em temas políticos. Nesse caso, memes e publicações humorísticas alinhadas às convicções do indivíduo são compartilhadas rapidamente, sem verificação, mostrando que a vulnerabilidade à desinformação não é exclusividade de uma classe ou grupo, mas um fenômeno transversal, atravessado por psicologia, emoção e contexto social.
Representação artística da ministra Carmen Lúcia vestida simbolicamente como presidente do Brasil. Em 2018, ela assumiu interinamente a presidência da República durante a ausência do presidente Michel Temer. Algumas pessoas chegaram a tirar essa imagem de contexto, o que poderia gerar a impressão equivocada de que ela desconhecia a situação à época. (Imagem para fins ilustrativos)
Algoritmo: o general da internet
Por trás da circulação frenética de memes e notícias, existe um protagonista silencioso: o algoritmo. Presente em plataformas como Instagram, TikTok, Facebook e YouTube, esse conjunto de instruções matemáticas é responsável por organizar o que aparece na tela de cada usuário, definindo quais conteúdos ganham visibilidade e quais permanecem invisíveis. Em outras palavras, o algoritmo funciona como um curador invisível, guiando a atenção coletiva sem que o público perceba.
Um estudo recente publicado no site PNAS realizado pelo pesquisador Petter Törnberg aprofunda a compreensão de como as plataformas digitais moldam a polarização política. Törnberg é professor no Instituto de Linguagem, Lógica e Computação (ILLC) da Universidade de Amsterdã e sua pesquisa concentra-se na interseção entre inteligência artificial, mídias sociais e política, com o uso de dados digitais e métodos computacionais para análises críticas que contribuem para a teoria das ciências sociais. No artigo, ele argumenta que os algoritmos que regulam a circulação de informações privilegiam conteúdos de alto engajamento — como humor, indignação ou medo — e, ao fazer isso, acabam reforçando crenças pré-existentes e aprofundando divisões. Esse mecanismo não apenas prioriza a viralização em detrimento da diversidade informacional, mas também contribui para a formação de bolhas sociais, ampliando as distâncias entre diferentes grupos no debate público.
Além disso, Törnberg e colaboradores demonstram em estudo intitulado “Como a mídia digital impulsiona a polarização afetiva por meio da classificação partidária” que algoritmos de plataformas sociais tendem a amplificar conteúdos que reforçam preferências partidárias, estimulando respostas emocionais intensas e contribuindo para a polarização afetiva. A pesquisa mostra que a exposição a informações alinhadas à identidade política do usuário aumenta a hostilidade em relação a grupos opostos, enquanto conteúdos neutros ou divergentes são frequentemente ignorados ou filtrados pelo próprio sistema. Esse efeito evidencia como a estrutura algorítmica não é neutra e exerce influência direta sobre a formação de opiniões e atitudes sociais.
A lógica que orienta esses sistemas prioriza o engajamento. Quanto mais curtidas, comentários e compartilhamentos um conteúdo recebe, maior a probabilidade de ser impulsionado para mais usuários. Nesse contexto, memes e postagens humorísticas possuem uma vantagem natural: por serem leves, rápidos e divertidos, despertam interações instantâneas e se espalham com facilidade. Essa característica, no entanto, também favorece a propagação de conteúdos enganosos ou distorcidos, que muitas vezes utilizam o humor como estratégia para atrair cliques e gerar repercussão.
Um estudo realizado por Jonah Berger e Katherine Milkman, pesquisadores da Wharton School (Universidade da Pensilvânia), analisou milhares de artigos do New York Times para compreender quais características tornavam um conteúdo mais compartilhado. A pesquisa, publicada no Journal of Marketing Research, mostrou que textos capazes de despertar emoções de alta intensidade (como admiração, ansiedade ou raiva ) tinham muito mais chances de viralizar do que conteúdos neutros ou que evocavam tristeza. Em outras palavras, a viralidade não depende apenas do tema tratado, mas principalmente do grau de excitação emocional que ele gera no público. Essa lógica explica por que memes engraçados ou indignados podem ganhar muito mais espaço nos feeds do que reportagens densas e bem apuradas: nas redes sociais, a emoção pesa mais do que informação (BERGER; MILKMAN, 2012).
Na prática, isso cria uma dinâmica em que a busca por alcance e engajamento se sobrepõe à qualidade da informação. O resultado é um ambiente digital em que a “fake news” encontra terreno fértil, mascarada por formatos criativos e divertidos. Mais do que apenas uma falha técnica, essa engrenagem revela como a própria arquitetura das redes sociais pode reforçar desinformação, transformando o riso em ferramenta de distorção.
Caminhos para enfrentar a desinformação
Se por um lado a “desinformação” avança com velocidade inédita, por outro, iniciativas acadêmicas, tecnológicas e educativas buscam construir formas de enfrentamento. Um exemplo é o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Unicamp, que desenvolve projetos para treinar sistemas de inteligência artificial na detecção de “fake news”. O objetivo é criar ferramentas capazes de identificar automaticamente padrões de manipulação em textos e imagens, auxiliando tanto jornalistas quanto usuários comuns a distinguir conteúdos falsos de informações verificadas.
Essas iniciativas, no entanto, ainda encontram obstáculos para ganhar escala e impacto amplo. A aplicação prática de tecnologias de checagem depende não apenas de avanços técnicos, mas também de políticas públicas e da colaboração entre plataformas digitais, órgãos de imprensa e instituições governamentais. Sem essa integração, o potencial de soluções inovadoras corre o risco de permanecer restrito ao ambiente acadêmico ou experimental.
Outro ator fundamental nesse processo são os sites de checagem de fatos, que vêm se consolidando como referências no combate à desinformação. Plataformas como Agência Lupa, Aos Fatos e Fato ou Fake desempenham um papel essencial ao verificar declarações públicas, desmentir boatos virais e trazer transparência ao debate. Ainda assim, o alcance desses serviços é limitado, já que dependem do interesse ativo do público em buscar a checagem — o que reforça a necessidade de que sua atuação seja combinada com tecnologias de monitoramento e estratégias educativas.
Ao mesmo tempo, especialistas defendem que nenhuma tecnologia será suficiente sem educação midiática. Ensinar a população a reconhecer distorções, identificar fontes confiáveis e desenvolver hábitos críticos de consumo de informação é uma das frentes mais eficazes e sustentáveis no combate à “desinformação”. Isso inclui desde iniciativas em escolas, para introduzir práticas de leitura crítica no ensino básico, até campanhas públicas de conscientização voltadas a adultos e idosos, que são igualmente impactados pela circulação de conteúdos enganosos.
Dessa forma, as soluções passam por um caminho híbrido: combinar inovação tecnológica, checagem jornalística e letramento digital. Inteligência artificial, políticas regulatórias e educação crítica, atuando em conjunto, oferecem uma perspectiva mais sólida para reduzir o impacto da desinformação e equilibrar a comunicação.
A alegoria da caverna, de Platão, descreve prisioneiros que, acorrentados desde o nascimento, veem apenas sombras projetadas na parede e acreditam que elas representam a realidade. Essa imagem foi reproduzida por inteligência artificial para ilustrar como as “fake news” podem enganar e manipular o público: muitos aceitam informações distorcidas como verdade, sem perceber o perigo de estar sendo enganado e privado da realidade. Na caverna da desinformação, interesses políticos, algoritmos e ambições pessoais funcionam como correntes invisíveis, controlando o que é visto e compartilhado, direcionando percepções e reforçando crenças convenientes para quem detém poder. Ao final dessa caverna, jornalistas comprometidos com a ética profissional atuam como guias, buscando combater a desinformação, revelar a realidade oculta e abrir caminhos para que a sociedade enxergue além das sombras criadas por aqueles que tentam manipular a opinião pública. É um convite à rebelião contra a manipulação, defendendo pluralidade, diversidade de ideias e o direito de cada indivíduo a compreender os fatos com clareza e autonomia.
















































